As alegrias (ou tristezas?) da vida consistem em sabermos viver cada etapa. Gradativamente.  

 

DIÁRIO DE UM PERALTA – F I M
- A CERTEZA
Alguém já disse que o tempo é implacável. Não há como detê-lo. É verdade! O tempo é como uma maré que vai subindo, subindo, galgando o limite máximo da sua altura... Agora eu o sinto na pele, nos cabelos brancos. Sinto no meu caminhar, na (in)disposição para fazer as coisas. Sinto nas transformações que a natureza, sem deter o seu curso, instaurou na minha vida.

Implacável como o tempo, ainda soa em meus ouvidos as palavras do velho pastor da nossa igreja que sempre encaixava nas pregações dos cultos, o Salmo 90, versículo 12: “ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio”.

Aprendi a contar os meus dias - nasci na década de 30 - não sei se alcancei coração sábio, mas fui alcançado pelo progresso que mudou tudo. Tudo mesmo! Mas não mudou a história da minha infância que escrevi no meu coração e que permanece intocável. Tenho mamãe e meu pai, os dois já bem velhinhos, juntinhos de mim, para alimentá-la a cada dia.
Sim! O tempo! O meu tempo! Tudo mudou... só as lembranças permanecem intocáveis.
F I M


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Quando ouvi o barulho lá fora, o alarme, entrei em pânico. Vi claramente a defunta entrando na nossa casa.

 

DIÁRIO DE UM PERALTA – 18ª parte
- ANGELINA /  OS GANSOS

Antes eu disse que mamãe adorava os gansos. Pois é! Foram um presente da madrinha dela. Ganhou dois filhotinhos e hoje tínhamos um bando.
No dia que Angelina, a moça-velha, aquela costureira da “casa da varandinha com gerânios”, bebeu veneno, eles me deram um susto danado. Eu estava debaixo da mesa ouvindo a conversa de mamãe e meu pai sobre o assunto, quando eles começaram a gritaria, anunciando a chegada de alguém. Subi um pouco a toalha da mesa que me encobria e vi alguém entrando. Uma saia preta quase arrastando no chão, pisando de mansinho, passos lentos, avançando na direção da varanda. Era Angelina, a defunta, deslizando pra dentro da sala. Gritei apavorado, ao mesmo tempo em que me levantei pra correr. A minha cabeça bateu no fundo da mesa e consegui virar tudo de pernas pro ar. Todo mundo foi pego de surpresa. Corri pelo corredor, para o quintal. Mamãe foi mais rápida e me alcançou. Meu pai, sem dizer palavra, olhava eu ser trazido de volta pela orelha. E aquela saia preta quase arrastando no chão, que alarmou os gansos, era a minha avó paterna. Eu havia corrido porque sabia que levaria uma surra. Minha avó recriminou:
- Lídia, esse menino não tem jeito! O que ele estava fazendo debaixo da mesa?

 

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A bem da verdade, o nosso ego tem uma maneira meio estranha de se satisfazer. Era esse o caso de Maria Margarida, acho eu.


DIÁRIO DE UM PERALTA – 17ª parte
BRINCADEIRA CRUEL?
Acho que tem gente entediada com a minha história. Para finalizar, só queria falar de uma pessoa do meu passado que eu considerava pitoresca: Maria Margarida. Ela era o que a molecada considerava “uma doida”, o nosso brinquedinho. Nós nos divertíamos demais com a figura dela. Com certeza, a coitada sofreu nas nossas garras. Também, ela provocava... Bem, deixe-me contar um pouquinho sobre ela: saía de casa sempre no mesmo horário, de cabeça baixa, andando igual a uma gansa. Ao cruzar a praça, olhava discretamente para as nossas casas para certificar-se de que estava sendo vista. Descia a rua e desaparecia no beco escuro. Saíamos correndo, escondido dos pais. E cada um ia avisando o outro. Ao chegarmos no beco, ela já estava nos esperando. Era a maior farra. O melhor da festa ia começar. Então gritávamos em coro:
- Maria Margari dá dá dá! Margari dá dá! Margari dá dá!
Depois dos nossos gritos, acontecia o previsto. Ela enlouquecia. Corria desajeitada - um animal tentando capturar a presa - pegava o que visse pela frente e jogava em nós: pedras, pedaços de pau, tijolo, tudo. A gente delirava, correndo e gritando. Ela atrás. Era cada um por si. Cada qual pro seu lado. Ela ficava atarantada, querendo pegar qualquer um de nós. Quando se cansava de correr, sentava no meio-fio chorando, gritando palavrões horrorosos, esmurrando as próprias pernas e sapateando, enquanto ríamos até cansar.

Nunca imaginei que algum dia iria considerar essa brincadeira até cruel! Pois é! Mas ela gostava, gente! Ela mesma até disse naquele dia, após levarmos uma surra e decidir não mais mexer com ela:
- Uai, ocês num vai mexê cum eu hoje não?
Isto depois de ver que a gente estava sentados nos bancos da praça bem sossegados, vendo ela passar pra lá e pra cá à espera de que a gente mexesse com ela... Ninguém tinha coragem. Todo mundo com medo de outra surra.
Hoje penso que apesar de tudo, ela gostava de ser atazanada. Era a sua forma de ser notada... A verdade é que nos divertimos muito com Maria Margarida. Pena que morreu.

 

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Nunca imaginei que o amor por uma mulher pudesse ser tão... tão... nem tenho palavras para expressar o meu pensamento!


DIÁRIO DE UM PERALTA – 16ª parte
THRESSE – a minha paixão.
Na Colônia Germânica, conheci Thresse, uma alemãzinha da família Kleiner, por quem me apaixonei. Eu tinha quase dezesseis anos, estava voltando do Internato e ainda não namorava. Na verdade agora eu só queria bagunçar, recuperar o tempo perdido. No mais, era muito tímido com as meninas. Thresse mexeu com o meu coração, mas o meu primo Chute, sempre entrão, chegou na frente. Enquanto eu pensava no que iria dizer a ela, os dois já estavam namorando. Descobri tarde demais. Quando via os dois juntos, achava-o um traidor, mas disfarçava o meu ódio. Afinal, éramos parentes e fomos criados juntos. Não dizia nada, mas o ódio foi crescendo e um dia quando ele contou que ia ficar noivo, decidi matá-lo. Alimentei a idéia por muito tempo. E levei a coisa tão a sério que construí uma armadilha, aquela de pegar capivara, usando uma velha espingarda e linha de pescar amarada ao gatilho. Deixei a armadilha pronta no mato e fui à casa do meu primo convidá-lo pra caçar.
Preparei tudo de modo que Chute embaraçaria na linha e o tiro iria atingi-lo em cheio. Meu primo tinha um cão que nunca largava-o, chamado Fiel. Saímos. Fiel sempre alegre, pulando, farejando, viu um coelho e correu para pegar o bicho. Embaraçou na linha. Ouviu-se um tiro. O animal tombou. Corremos.
Quando vi o pobre animal ali morto, ensangüentado, eu também fui atingido. Atingido pela minha consciência. Por pouco teria matado o meu primo, o meu amigo de infância. Tudo por causa de uma mulher, por uma paixão, por ciúmes, inveja, sei lá! Virei as costas e fechei os olhos para não ver o desespero de Chute diante do seu animal morto.
Na verdade, ali, de costas e de olhos fechados, eu orava agradecendo a Deus por ter sido o animal. Se alguma coisa tivesse acontecido a Chute, acho que me mataria também. Naquele momento decidi contar toda a verdade. Mal acabou de ouvir, Chute partiu pra cima de mim. Travamos uma luta corporal, na qual tentei me safar sem machucá-lo, mas o meu primo estava mesmo a fim de acabar comigo. Tentando me livrar dele, dei-lhe um empurrão. Ele caiu de penas pra cima e sai correndo, quando sua voz cheia de ódio gritou.
- Parado, seu canalha!
Virei-me. Chute me apontava a velha espingarda.
- Agora sou eu que vou matá-lo, desgraçado!
Fechei os olhos e berrei.
- Atire, Chute! Vamos acabar logo com isso!
Não sei quanto tempo se passou até o momento em que ouvi um tiro. Surpreso, abri os olhos e vi que Chute mirava pra cima.
- Devia ter atirado em você, seu canalha! Não tive coragem. Some da minha frente, Beto! Não quero te ver nunca mais!
- Chute, me perdoe...
- Se você tivesse dito que estava apaixonado por Thresse, eu teria desistido de namorar com ela.
Aquelas palavras doeram muito. Tentei argumentar.
- Chute, não tive coragem...
Cheio de ódio, ele me encarou, agora encostando a espingarda no meu peito.
- Some da minha frente, Beto! Nunca mais quero te ver! Some antes que eu mude de idéia e aperte o gatilho!
Dei-lhe as costas e sai andando lentamente. Ele gritou outra vez.
- Corre, seu desgraçado!
Corri pelo mato, cambaleando, envergonhado. Queria estar bem longe dali. A vergonha e o remorso tornavam pesadas as minhas pernas.
Depois disso, Chute nunca mais foi a nossa fazenda. Nunca mais o vi. Acho que pus fim a nossa amizade no momento em que cogitei matá-lo.
Resumindo:
Nem eu nem Chute se casou com Thresse. Ela fugiu com o leiteiro, um rapaz moreno de cabelos crespos, que toda manhã ia numa caminhonete apanhar o leite pra vender na cooperativa.

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Esta é uma página em branco da minha vida. Não, não pensei que me entreguei às drogas, à perdição, ou sei-lá-que-mais. Naquela época, se existiam drogas, não chegaram a mim. Fato é que a minha mente não sedimentou de imediato as rápidas mudanças ocorridas nas últimas horas.


DIÁRIO DE UM PERALTA – 15ª parte
- LOUCURA
Tudo mexeu com a minha cabeça. A fuga da nossa casa, a prisão do meu pai, a tarefa de cuidar da horta, ter que ter contato com o tio Kurt, que na certa ia arrancar o meu couro, a espingarda, arma que eu nunca havia nem tocado. Tudo.

Assim, com a cabeça abarrotada, pensando no meu pai, naquela noite não consegui dormir. Meus olhos não despregavam da espingarda sobre uma cômoda do quarto, mas quando me cansei, fechei-os. Longas horas depois, ouvi o canto dos pássaros. O dia clareava. Levantei, tonto de sono. A cabeça doendo. Naquele quarto, tudo me pareceu estranho, sem sentido. Sem pensar no que fazia, peguei a espingarda. Mirei a janela. Disparei. Corri para fora gritando, disparando, enlouquecido. Eu mesmo assustado com o barulho dos tiros. Todos se levantaram alarmados, sem saber o que estava acontecendo. E eu continuei atirando, gritando e correndo pelo quintal da fazenda. Quando conseguiram me segurar, já não haviam mais balas na espingarda e nenhum sentimento no meu coração.
Senti alguém me abraçando, sufocando o meu rosto contra o peito. Era mamãe. E vozes desesperadas clamavam pelo Senhor.
- Meu Deus! Beto ficou doido!
A voz do meu avô sobressaiu-se a todas:
- Precisamos dar um jeito... Vou ao Internato providenciar isso agora!
E vovó:
- Fritz, a cidade está um barril de pólvora. Você corre risco de vida. A guerra... os manifestantes...
A voz do meu avô retrucou com conficção.
- O Senhor é comigo! Vou na fé! Onde eu estiver, Ele estará comigo!
Deu meia volta, subiu no cavalo. Em seguida, na estrada só se via a poeira vermelha levantando. Ninguém disse mais nada e encaminhamos para a casa. Eu agarrado no vestido de mamãe, assustado comigo mesmo, e vovó abraçada com ela.


Em suma, eu disse que era uma página em branco da minha vida? Acabei contando tudo. E esse tudo foram uns 6 anos que passei no Internato. Aí sim, minha vida mudou radicalmente. Lá não havia peraltices. Havia castigos, disciplina, muito estudo. Quando retornei à fazenda, já estava com uns 15 anos.

 

 

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Aqui começou uma etapa diferente na minha vida, na qual adquiri responsabilidades de uma pessoa adulta.

DIÁRIO DE UM PERALTA – 14ª parte
- O PRESENTE
No dia seguinte o meu avô disse.
- Beto, presente pra você!
Saí correndo, louco de curiosidade. Afinal, uma boa notícia depois de tanta tragédia, mas a surpresa foi grande quando o meu avô me entregou uma coisa pesada, embrulhada com papel cor de terra (antigamente não existiam esses papeis coloridos, cheios de desenhos). Quando peguei o objeto, era pesado o suficiente para cair da minha mão, se eu não tivesse me curvado para equilibrar o peso. Quando abri, tive uma surpresa. Era uma enxada.
O meu avô ainda disse.
- Amanhã você vai com o seu tio Kurt para a mata cortar o cabo da enxada. Você vai cuidar de uma horta de verduras. Aqui na fazenda, todos comem com o suor do rosto.
Disse isto com sotaque, atropelando as palavras, mas com tranqüilidade. Eu assenti, enquanto observava meu tio Kurt sorrindo para mim com ar de vitória. Ele não gostava de mim e agora sentia prazer eu me ver agora com responsabilidades. Cogitei jogar a enxada no pé dele, quando a voz do meu avô me desviou do meu instinto violento.
- Tem outro presente!
Virou-se e foi até um cômodo da casa, que permanecia sempre trancado. Voltou com uma espingarda.
- Isto é pra caçar, mas servirá para nos defender também, se algum invasor de guerra tentar entrar nas nossas terras.
E assim estava eu diante de uma realidade bem diferentes das brincadeiras na praça com a molecada.

Uma notícia que mexeu com toda a minha vida. Todas as minhas emoções. Todas as minhas alegrias.


DIÁRIO DE UM PERALTA – 13ª parte
- A PRISÃO
Assim fiquei sabendo que no dia da destruição da nossa casa, meu pai fora preso. Ele se envolveu numa briga de bar e acabou esfaqueando um homem. Saiu do bar algemado, envergonhado, de cabeça baixa. Estava agora na cadeia. Fiquei chocado. Eu morria de medo de soldado. E fiquei imaginando o meu pai nas mãos daqueles negrões fortes, maus, dando chutes e socos nele.
Parece-me que a briga foi por causa de uma mulher.
Eu perguntava a mim mesmo: será que a mulher causadora da briga era aquela do portão, daquele dia que saí com mamãe e os vi? A mesma do neném?
Só sei que depois da invasão da nossa casa, da guerra e da nossa mudança para a Colônia Germânica, nunca mais vi o meu pai.
Será que ele morreu? Ninguém tocava no assunto. Nem mamãe. Muito menos os meus parentes, que não gostavam dele por ser negro.

Vejam a reação de TINA e JÚLIA diante da morte de ANDIE, na minissérie Dulcinéia. http://dulcineia.blogspot.com

Foi doloroso para todos nós aquele dia...


DIÁRIO DE UM PERALTA – 12ª parte
- A NOTÍCIA
No dia seguinte, estávamos tomando o café da manhã quando ouvimos o trotar de um cavalo se aproximando. Vimos a poeira subindo na estrada, quando o cavaleiro se aproximou. Era um colega de serviço de meu pai. Ele abriu a cancela e de longe mesmo gritou:
- Frau Lídia!
Mamãe foi atendê-lo. O rapaz desceu apressadamente e gesticulava muito, falando sem cessar. Nós permanecemos sentados à mesa, observando através das janelas do casarão, quando vimos o corpo de mamãe se agitar, agarrando violentamente a sela do cavalo. Gritos alucinados saíam da sua boca. Meus avós correram. Corri também. Mamãe tremia, sem largar a sela, ao mesmo tempo em que o corpo escorregava para o chão. Corri pra junto dela chorando:
- Que foi, namãe?
- Beto... meu filho... seu pai... foi preso!
Após essas palavras surgiu um tumulto. Meus avós aproximaram mais. Eu abracei-a com força, chocado com a notícia e por nunca tê-la visto naquele estado, quando repentinamente ela se desvencilhou de mim e subiu no cavalo, puxou a rédea e fez menção de sair. Meu avô pulou na frente do animal, segurando o seu pescoço. Desesperada, mamãe pediu:
- Deixa eu ir lá, papai! Pelo amor de Deus...
Vovó arrancou de suas mãos as rédeas e determinou:
- Desça daí, Lídia! Ficou doida? Esqueceu a sua raça? Estão destruindo tudo que é dos alemães. Quer morrer?
Por um momento eu a vi sucumbir; as lágrimas escorriam dos seus olhos, ao mesmo tempo em que pareceu refletir. Minha avó gritou:
- Desça daí! Agora!
Mamãe obedeceu. Desceu lentamente. Vovó abraçou-a e juntas seguiram para dentro da casa. Vovô me deu a mão e disse algo em alemão. Não entendi, mas senti que eram palavras para me consolar.

Na minissérie Dulcinéia, O ACIDENTE, momentos decisivos. Acesse http://dulcineia.blogspot.com

Foi um dia de terror. Jamais me esquecerei de como o pânico tomou conta de mim.

DIÁRIO DE UM PERALTA – 11ª parte
A DESTRUIÇÃO
- 2ª Guerra Mundial.
Uma multidão se aglomerou na praça, apontando para a nossa casa. Em seguida começou a descer, armados de paus e pedras. Mamãe e meus avós, que estavam lá no momento, me arrastaram e corremos para o porão. Nos escondemos. De lá, podíamos ouvir o barulho de coisas sendo quebradas, vidros estraçalhados, os potes de conservas sendo jogados no assoalho da cozinha. Eu estava apavorado. Mamãe tapou os meus ouvidos e escondeu o meu rosto com o avental. Em meio ao tumulto, uma voz sobressaiu-se às outras, sugerindo:
- Vamos botar fogo na casa!
Alguém contra-argumentou:
- Não! Pode incendiar as outras casas!
Não sei dizer exatamente quanto tempo permanecemos escondidos, mas quando saímos, perguntei a mamãe sobre tudo aquilo. Ela simplesmente disse a frase como se estivesse falando com um adulto:
- A Alemanha está em guerra!
E continuou falando com meus avós em alemão, da maneira como eles sempre se comunicavam. Meus avos falavam muito mal o português.
Fiquei calado, observando-os, enquanto pensava onde era a Alemanha. E a guerra, o que significava a guerra?

Entramos cautelosamente no que restou da casa. Mamãe, com a sua costumeira agilidade, pegou algumas roupas. Meus avós correram ao quintal e atrelaram o burro à carroça. Não vi em nenhum deles uma lágrima ou um lamento sequer pela destruição. Já deviam estar acostumados com o caos porque vieram da Alemanha fugindo da Recessão. Ninguém abriu a boca pra dizer palavra. Fomos para a fazenda de uns parentes que também já haviam sofrido ataques e estavam tão amedrontados quanto nós, na Colônia Germânica, um lugarejo onde viviam os alemães e seus descendentes. Naquele dia, saímos às pressas da nossa casa, toda destruída, para nunca mais voltar. Chorei com o pressentimento de que não veria mais os meus amigos das bagunças com Maria Margarida, das brincadeiras na praça... As lembranças se misturavam em meio a toda a destruição. Chorava, enquanto a carroça nos sacolejava como se fôssemos sacos de cereais indo para a feira, junto de um casal de gansos, os mais velhos do bando que mamãe criava.

Atrás vinha o tio Kurt, tia Dalva e Chute. Eles mantinham distância por causa da poeira vermelha que subia pela estrada, mas estávamos juntos no mesmo propósito: fugir da guerra.

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Ainda era criança para entender a situação, mas tinha certeza de que havia algo errado quando vi novamente aquela mulher.

DIÁRIO DE UM PERALTA – 10ª parte
- A VISITA INESPERADA
Alguns dias depois, a mesma mulher, com uma criança nos braços, chegou no nosso portão. Mamãe foi atendê-la. Depois de conversarem por longo tempo, mamãe entrou de cabeça baixa e foi para o quarto, fechando a porta. Eu a ouvia chorando baixinho.
À noite, quando meu pai chegou, mamãe se trancou com ele e ficaram discutindo. Eu podia ouvir as vozes alteradas no quarto. Cheguei a encostar o ouvido na parede, mas não pude distinguir o que falavam. Quando os vi sair, parecia que mamãe havia chorado novamente e meu pai estava bastante sem graça. Ela estava com os olhos e o rosto vermelhos. Ele evitava me olhar.
Meus pais tinham o hábito de conversarem escondido de mim. Naquele dia eu queria tanto saber o que eles conversaram, queria ter ouvido tudo.

No dia seguinte, mamãe arrumou as nossas malas e fomos para a fazenda da irmã dela. Adorei, apesar de estar longe de meu pai. Eu estava com tudo que queria, ficar sem ir à escola.
E quando eu já estava começando a sentir saudades, ele apareceu. Chegou de mansinho, meio sem graça, como naquele dia da briga dos dois, e conversou timidamente com mamãe. Saíram da casa. Fiquei na varanda. E de lá eu os via andando pelo cafezal. De repente vi mamãe se jogar nos braços de meu pai, como se estivesse esmurrando-o. Ele, por sua vez, segurou firmemente os braços dela, afastou-a como se fosse empurrá-la, mas abraçou-a e os seus lábios se encontraram selvagemente. Vi que estavam se beijando. Fui dominado por um sentimento que até hoje não sei definir qual. Aquela foi a primeira vez que vi meus pais se beijando.
Quando retornaram, ele anunciou todo alegre:
- Filho, vamos voltar pra casa!
A partir de então, meu pai começou a chegar em casa as seis da tarde. Passou a jantar conosco. Mamãe o tratava como se nada de errado tivesse acontecido.
Mas afinal, aconteceu algo errado?

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Nunca pensei que aquela descoberta fosse mexer com a minha vida. Daí pra frente, muita coisa mudou.

DIÁRIO DE UM PERALTA – 9ª parte
- A SURPRESA
Todo ano o meu bairro fazia festa junina e mamãe é quem costurava as roupas das pessoas que dançavam a quadrilha.
Numa segunda-feira fomos à cidade comprar tecidos. Na esquina de casa, pegamos uma charrete que fazia o transporte para o centro. Era umas quatro horas da tarde. Rodamos por algumas ruas. De repente vi o meu pai no portão de uma casa com uma mulher morena. Gritei por ele e pedi o cocheiro para parar. Ele se virou. O cocheiro não parou. Continuei gritando, pendurado, acenando. Mamãe também gritou, mas foi com o cocheiro para andar mais rápido.
- Eia! Rápido! Preciso comprar tecido antes que escureça!
Em seguida, virou-se pra mim dizendo que aquele não era meu pai e sim uma outra pessoa. Teimei.
- Era ele sim!
Mamãe me ameaçou:
- Se você disser a alguém que viu seu pai naquela casa, te dou uma surra.
E finalizou com um monte de palavras em alemão, que eu não entendia. Apenas sabia, pela expressão do seu rosto, que não era nada bom. Em casa, aquelas palavras seguiam-se puxões de orelha.
O charreteiro interrompeu-a:
- Frau* Lídia, vamos ter que dar voltas. A ventania derrubou uma arvore na rua. Tá vendo ali adiante?
Percebi que ao invés de olhar para onde o homem indicava, ela disfarçadamente olhou para a casa onde meu pai conversava com a mulher.
Agora ele passava pelo portão da casa.
* Senhora

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Havia nas nossas brincadeiras de infância o lado folclórico...  E até os adultos se divertiam.

DIÁRIO DE UM PERALTA – 8ª parte
- MASCARADO PACO-PACO
Inventamos a brincadeira por acaso. Numa noite de verão, tivemos a idéia de sair os cinco fantasiados de molambentos, de maneira que ninguém reconhecesse a gente. Isto provocou uma reação nas pessoas bem maior do que esperávamos. A brincadeira agradou logo de cara. Quando passávamos pelas ruas, a criançada delirava gritando:
- Mascarado-paco-paco comedor-de-carrapato... mascarado-paco-paco...
Tentando descobrir quem estava fantasiado, corriam atrás de nós, procurando evitar as pauladas, pois ameaçávamos agredir quem chegasse mais perto. Enquanto isso, ouvíamos a meninada em coro:
- Mascarado-paco-paco comedor-de-carrapato... mascarado-paco-paco...
O apelido pegou! E naquela noite, até os adultos gostaram da folia. Foi uma verdadeira farra. A gente estava mesmo irreconhecível e a curiosidade não tinha limites. Meu Deus... hoje (setenta e tantos anos depois) penso que nunca me diverti tanto em minha vida.
Três dias depois de perambularmos pelas ruas fantasiados, a brincadeira já tinha virado notícia na vizinhança toda. E no quarto dia, quando eu estava no quintal dando milho para os porcos, mamãe me chamou:
- Beto, tem uns meninos lá fora querendo falar com você!
Calculei que alguém queria brigar comigo. Tratei de me defendendo.
- Não fiz nada! Estão querendo me bater, mamãe?
Ela brincou.
- Tá com medo? Eles não parecem querer brigar não!
Atravessei correndo o corredor e fui ver os meninos. Quando cheguei na frente da casa, deparei com um montão de barulhentas crianças, armados de pedaços de paus, roupas velhas, molambos, outros sentados no meio-fio... Até Cabecinha de Fubá, aquele dedo-duro que nós demos porrada nele, estava no meio. Um deles tomou a frente do grupo e foi logo pedindo:
- Beto, deixa nós entrar na brincadeira de mascarado-paco-paco...
O tom de sua voz era de súplica e isto me fez ver que a brincadeira tinha sido mesmo um sucesso. Me senti importante. Então determinei.
- Cabecinha de Fubá, vai chamar os meus amigos! Vou resolver com eles! Eu sou o chefe, mas vou resolver com eles!
O menino saiu correndo, gritando satisfeito, agora sem mais demonstrar medo de mim. Não demorou nada, Caduco, Zuza, Chute e Cabrito estavam reunidos conosco na praça. A euforia era geral. Eu subi num banco e comecei a explicar a brincadeira. A molecada se coçava de vontade de se juntar ao grupo para à noite percorrer as ruas assustando o povo.
Por fim, dei as explicações necessárias. O mascarado tinha que estar irreconhecível e usar um cabo de vassoura ou pedaço de pau para se defender de alguém que quisesse arrancar a fantasia. O grupo não devia chegar junto nas ruas, cada um ia aparecendo devagarinho, nas esquinas, nos escuros... assim a brincadeira ficaria mais emocionante. Ninguém deveria saber de onde surgiam os mascarados-paco-paco. Expliquei tudo direitinho. Para encerrar, perguntei:
- Entenderam?
Um menino de uns 8 anos, vendedor de doces, falou:
- Nós entendeu!
Gritei com ele, com raiva, pulando do banco.
- Você não vai entrar na brincadeira não! Não sabe nem falar direito!
O menino abriu a boca num berreiro, correndo pra trás de uma árvore. Cabrito deu um salto mortal e com mais dois saltos, estava de frente com nós entendeu. Passou o braço direito em volta dos seus ombros magros e com um dedo da mão esquerda, tocou o seu queixo aconselhando:
- Chora não, neném!
Todo mundo caiu na risada. E aí é que o menino chorou mais, escondendo o rosto atrás da árvore.
Chute cochichou comigo:
- Beto, melhor deixar esse chorão entrar. Se ele mentir pra mãe dele que batemos nele, a gente leva surra.
Ouvindo isso, Caduco correu até o menino e quase fez um discurso:
- Menino, você vai entrar na brincadeira sim! Todos têm o direito de ir e vir. Esse direito não pode ser negado a ninguém. Ninguém mesmo, tá bom, meu camarada?
Alguém entendeu que direito era aquele? Claro que não! Mas foi dito por Caduco, o mais estudioso de todos nós, e isso fez a felicidade do menino, que agora caiu na risada, dando saltos de alegria.

Assim, nas noites de verão, os mascarado-paco-paco comedor-de-carrapato saíam dos becos, das ruas, pulavam dos muros, assombrando todo mundo. A gente sentia o terror estampado nos rostos das meninas, sentia a emoção das pessoas, o riso, a alegria, uma emoção indescritível. Quando cansávamos de correr, de lutar, de fugir, deixávamos que nos tirassem a fantasia. O delírio era geral quando reconheciam o (des)mascarado.

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Uma figura caricata que perambulava pelas ruas... não mexia com ninguém, exceto pelo seu próprio jeito de ser já mexer com as pessoas.

 

DIÁRIO DE UM PERALTA – 7ª parte
- T O R Q U A T O
Havia um mendigo no nosso bairro, o Torquato. Imundo, esfarrapado, cabelos desgrenhados, dentes estragados, se é que havia dentes ali. Um interminável sorriso nos lábios e palavras na boca, emboladas e inaudíveis, que ninguém fazia questão de entender. Dizem que ele ficou assim, perturbado, de tanto ler. Era de família rica, afirmavam. No passado, era muito inteligente e estudou tanto que acabou perdendo o juízo. Cada um tinha uma versão diferenciada de Torquato, mas o consenso era que ele nao fazia mal a ninguém.  Para mim, naquele tempo... agora percebo que o mistério envolvia a figura do mendigo. Hoje, mais de seis décadas depois, muitos vivem na miséria como Torquato vivia. E ninguém chega sequer a conhecer a sua história, folclórica ou não.

Um dia o vimos comendo do lixo. Ele nos chamou. Ficamos receosos, mas nos aproximamos curiosos porque ele nos mostrou umas frutas vermelhas, que a gente não conhecia, semelhantes a tomate, as quais ele comia com ar de quem estivesse gostando muito. Torquato esticou a mão nos oferecendo. Recusamos. Ele insistiu. Por fim, pra demonstrar que tinha coragem de comer do lixo, desafiei os meus colegas. Começamos a comer. Torquato nos disse:
- É caqui... é gostosa...
Concordei com ele. A fruta era mais deliciosa do que se podia imaginar e era a primeira vez na minha vida que eu comia caqui.
Mamãe voltava do armazém naquele momento e me viu comendo. Avançou contra mim, dando tapas na minha cara. Comecei a gritar, correndo pra casa. O sangue escorria...  de repente percebi que havia algo mais além de sangue na minha boca e bem menor que a semente do caqui. Cuspi. Eram dentes.
Esta foi a maneira como os meus dentes-de-leite foram extraídos.

(Às vezes eu achava que mamãe não gostava de mim. Ou eu mesmo não gostava de mim? Vivia aprontando e levando surras... Ela era seca, não demonstrava muito carinho, mas era mãe e esposa superdedicada. Acho que o seu jeito seco vinha da sua cultura. Era descendente direta de alemães. E os alemães da minha infância eram bem diferentes de nós brasileiros).

C o n t i n u a...

 

O compromisso e o descompromisso das brincadeiras de criança em MARCARADO PACO-PACO... 8ª parte

 

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Idealista e visionário desde criança, sonhava com uma sociedade igualitária...

 

DIÁRIO DE UM PERALTA – 6ª parte

OS MEUS AMIGOS
- CADUCO
Em plena ditadura, Caduco, visionário desde os tempos de criança, entrou para um partido comunista. Nessa época, eu já estava com mais de 20 anos e morava num outro bairro com mamãe. Todo mundo evitava falar do meu pai, mas eu sabia que ele estava preso por ter assassinado um homem no dia em que a nossa casa foi destruída. Eu sentia muita falta dele. E ficava imaginando como devia estar sofrendo, até passando fome. Via-o em casa, nos bons tempos de infância, com aquele pires cheio de pimenta vermelha, o suor escorrendo da sua testa... Sentia vontade de chorar. Só não o fazia porque sempre soube que homem não chora.
Voltando a Caduco, seus colegas de partido aproveitaram a nossa casa em ruínas, a qual foi destruída por manifestantes na 2ª Guerra Mundial, e se reuniam no porão. Eram reuniões clandestinas, que tinham como objetivo derrubar o governo e tomar o poder, dando ao povo o que lhes era devido, afirmavam. Ficaram meses ali, debatendo estratégias, angariando idealistas, até que agentes do governo descobriram tudo e os prendeu. Fiquei sabendo que eles foram amarrados, jogados numa carroceria de caminhão e o destino de todos, só Deus sabe. Desapareceram. A namorada de Caduco, que a considerei uma traidora na época, evitava até falar o nome dele. Agora a entendo e sei que era por medo. Ninguém dizia nada. Ninguém sabia de nada. No rádio só se ouvia aquelas músicas que eu dizia ser de “revolução”. Coisas patriotas, discursos... E a Ditadura ganhava força no Poder.
Hoje, sentado no banco da praça onde brincávamos, onde fomos tão felizes na nossa infância, eu olhava as montanhas ao longe, via os carros passando, carros que nos tempos de criança dizíamos ser de brinquedo... Olhava os carros ao longe, sumindo na estrada, na cadeia de montanhas e imaginava Caduco amarrado, jogado como se fosse um saco de batatas na carroceria de um caminhão, tomando um destino que só Deus sabe qual. Essa foi a imagem que criei quando soube da prisão. Essa imagem ficou incrustada na minha mente.
Será que mataram Caduco?

Continua...

 

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....era o mais divertido de todos... andava de cabeça pra baixo, apoiando-se nas maos...

 

DIÁRIO DE UM PERALTA – 5ª parte
OS MEUS AMIGOS
- CABRITO
Tinha esse apelido porque vivia dando cambalhotas, fazendo acrobacias, andando de cabeça pra baixo. Ele era a nossa diversão na praça, quando não estávamos aprontando outras. Infelizmente, na adolescência, Cabrito já estava enveredado na bebida a ponto de até perder, literalmente,  o rumo de casa. Entrava em qualquer casa que encontrasse a porta aberta, pensando que fosse a sua. E nessa época eu já não morava mais ali. Havíamo-nos separado, o que deixo pra contar depois.

Cabrito morreu no Canal de Suez em 1956, quando o presidente egípcio Gamal Nasser iniciou um conflito ao nacionalizar o canal e impedir a passagem de navios israelenses*. A ONU recrutou soldados brasileiros para o conflito e Cabrito estava entre eles. Foi convocado para integrar as Forcas de Paz e ficou lá no oceano mesmo. Mas não pensem que foi em combate, porque não houve troca de tiros entre israelenses e egipícios, nem ataque de piratas. Como ele bebia muito, era muito engraçado e tinha mania de dar cambalhotas, dizem que ao embarcar, foi logo travando conhecimentos com os outros convocados. Encheram a cara! E na farra, Cabrito começou a fazer peripécias. Saiu dando cambalhotas no convés, atravessando o navio de ponta a ponta, sob os aplausos dos colegas, todos caindo de bêbados. Dando saltos mortais, Cabrito não viu o fim do convés. E num último salto, não houve mais espaço para ele retornar. Caiu no mar e desapareceu instantaneamente. Era madrugada. Os salva-vidas tentaram resgata-lo, mas não conseguiram encontrar o corpo. Dizem que ele caiu numa área perigosa, de ondas gigantescas, que a água estava gelada, que não enxergaram nada, era uma região infestada de tubarões...
Enfim, acho que algum tubarão fez um banquete de Cabrito.
*Fonte: Google

 

No capítulo 6...

Você vai conhecer o meu amigo CADUCO... Visionário e idealista, queria uma sociedade igualitária...

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